Moradores da Maré se mobilizam para orientar eleitores sobre locais de votação no 2º turno
A Redes da Maré realiza ações entre 20 e 23 de outubro no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, após a mudança de locais de votação que atingiu 16.907 eleitores da região em relação a 2024, segundo o TRE-RJ.
Moradores e lideranças do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, iniciaram uma mobilização para ampliar a divulgação dos locais de votação antes do segundo turno das eleições gerais, marcado para domingo (25). De terça-feira (20) a sexta-feira (23), a organização não governamental Redes da Maré promove a ação Esquinas por Direitos para orientar a população sobre o direito ao voto e tentar reduzir a abstenção no conjunto de 16 comunidades.
Segundo a instituição, a iniciativa ganhou força depois das dificuldades relatadas por eleitores no primeiro turno, em 4 de outubro, quando parte dos moradores precisou votar fora de pontos tradicionais dentro da região. Pelas redes sociais e em abordagens nas ruas, a ONG também reforça que quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no dia 25 e que a ausência de biometria cadastrada não impede o exercício do voto.
De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), 16.907 eleitores da Maré tiveram o local de votação alterado neste ano em relação à eleição de 2024. A mudança atingiu 41 seções da 161ª Zona Eleitoral. No estado, foram 72 locais modificados por questões de segurança, em 20 cidades, alcançando cerca de 202 mil eleitores.
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O TRE-RJ informou à Agência Brasil que as alterações buscaram retirar seções eleitorais de áreas classificadas como de alto risco ou dominadas pelo crime organizado. Segundo o tribunal, os novos endereços foram definidos fora de áreas controladas pelo tráfico de drogas ou por milícias, afastados de territórios de facções rivais e o mais próximos possível dos pontos substituídos.
Na Maré, 7.268 eleitores que antes votavam na Escola Municipal Professor Josué de Castro passaram a votar no Centro Educacional Gama E Souza. Outros 4.907, que votavam na Escola Municipal Teotônio Vilela, foram direcionados para o Bonsucesso Futebol Clube. Já 4.732 eleitores que tinham como referência a Escola Municipal Professor Paulo Freire passaram a votar na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.
Relatos ouvidos pela Agência Brasil mostram o impacto dessas mudanças no primeiro turno. O fotógrafo Marlon Soares, morador da Maré, afirmou que pensou em desistir de votar após ser deslocado para outro bairro, precisar pegar condução e enfrentar mais de duas horas de fila. A moradora Rejane Barcelos, da Vila do João, contou que costumava votar perto de casa, mas neste ano foi encaminhada para uma igreja em outro bairro, sem ônibus nas proximidades, e enfrentou fila longa sob sol forte.
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Levantamento da Agência Brasil com base nos Boletins de Urna apontou que a abstenção nas 41 seções da Maré que tiveram endereço alterado em relação a 2024 chegou a 31,07%, acima da média nacional de 21,08%. O estudo Como vota a Maré, elaborado pela Redes da Maré, afirma que os dados não permitem estabelecer relação causal direta entre a troca dos locais e a abstenção, especialmente porque houve crescimento do eleitorado, mas indicam preocupação com barreiras de acesso criadas pelos deslocamentos para fora do território.
No dia da votação do primeiro turno, o TRE não associou o aumento da abstenção à mudança dos locais de votação. O tribunal também destacou à Agência Brasil que o transporte público é gratuito no dia da eleição em todo o país, com base na Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ainda segundo o TRE-RJ, o projeto Seu Voto Importa ofereceu transporte especial adaptado para eleitores com mobilidade reduzida no Complexo da Maré, mas não houve procura.
A Redes da Maré sustenta que o impacto das mudanças envolve sobretudo acessibilidade e mobilidade urbana. Nas contas da ONG, em quatro anos, metade dos eleitores da Maré passou a ter novos pontos de votação. Para a instituição, a transferência pode significar aumento do tempo de caminhada, necessidade de atravessar vias de grande circulação, inadequação ou ausência de transporte público e sensação de insegurança nos trajetos, com efeitos mais intensos sobre jovens, mulheres chefes de família, pessoas com deficiência e idosos.
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A analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso, afirmou à Agência Brasil que a participação eleitoral é um direito central e que a atuação da organização busca levar o debate sobre o voto para as ruas, reforçando o impacto coletivo da participação democrática no território.
Em relação ao segundo turno, o TRE-RJ informou que, na comparação com o local de votação do primeiro turno deste ano, haverá mudança em apenas um endereço no município do Rio de Janeiro, no bairro de Brás de Pina, para as seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª Zona Eleitoral. Na mobilização da Maré, a orientação principal é que o eleitor confira previamente seu local de votação e a situação do título antes de sair de casa. Os pontos diários da ação Esquinas por Direitos podem ser consultados no perfil da Redes da Maré.
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