Estudo da USP aponta risco de retração econômica no interior com cortes em benefícios sociais
Levantamento do Made, da FEA-USP, afirma que aposentadorias, Bolsa Família e BPC têm peso central na renda de municípios fora das regiões metropolitanas e que a perda de reajustes reais pode afetar consumo, emprego e arrecadação local
Um levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), divulgado em 17 de outubro, indica que a estagnação ou cortes no valor de benefícios sociais e previdenciários poderão provocar forte retração da atividade econômica em cidades do interior do país. Segundo o estudo, aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) têm participação relevante na renda dessas localidades e, entre as famílias mais pobres, podem representar quase metade do orçamento.
De acordo com a pesquisa, o efeito é mais intenso fora das regiões metropolitanas porque os recursos recebidos por essas famílias tendem, segundo os autores, a ser direcionados quase integralmente à compra de itens essenciais. Em declaração reproduzida pelo estudo, a economista Luiza Nassif, professora da Unicamp e pesquisadora do Made, afirma que esse dinheiro circula rapidamente no comércio local, ajuda a sustentar empregos e mantém ativa a arrecadação municipal.
O levantamento informa que, dos 5.569 municípios brasileiros, cerca de 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nessas cidades, o peso das transferências públicas chega a ser o dobro do verificado nos grandes centros, segundo a instituição. No Ceará, por exemplo, benefícios sociais e previdenciários respondem por 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana, enquanto, no interior, essa fatia sobe para 40%.
Google AdSense — aguardando ativação
Para estimar os impactos, o estudo projetou os efeitos da evolução da renda dos benefícios sociais e previdenciários nas cidades do interior para os próximos três anos. A comparação tomou como referência os anos de 2022 a 2025, período em que houve crescimento real para BPC e aposentadorias, e um cenário baseado nos reajustes aplicados entre 2019 e 2022, sem ganho real do salário mínimo e com congelamento total.
Segundo o Made/USP, sem esses reajustes, a renda agregada do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do nível observado com a valorização real dos benefícios sociais e previdenciários. Ainda conforme Luiza Nassif, isso desencadearia uma reação em cadeia sobre a atividade econômica, atingindo inclusive famílias que não dependem diretamente de transferências públicas.
Os cenários mais severos projetados pelo estudo aparecem no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda total cairia entre 17% e 18% sem a manutenção do ritmo atual de alta dos benefícios sociais. No Amazonas, Sergipe e Pernambuco, a perda ficaria em torno de 15%. Já no Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a retração estimada varia de 10% a 13%. Em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o prejuízo projetado é de 6,5%.
Google AdSense — aguardando ativação
O levantamento também destaca efeitos sobre a pobreza. Segundo Nassif, qualquer reajuste abaixo da inflação pode empurrar diretamente para a pobreza famílias que vivem no limite da renda. A pesquisadora afirma que, entre famílias com rendimento de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios podem responder por até 50% do total recebido.
Nas simulações do estudo, a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 teria levado aproximadamente 2,7 milhões de pessoas à pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões delas à extrema pobreza. Em números absolutos, as maiores elevações no contingente de pobres ocorreriam na Bahia, com até 336 mil pessoas a mais, em São Paulo, com até 263 mil, e em Minas Gerais, com até 251 mil. Maranhão, Pará e Ceará aparecem na sequência, com mais de 200 mil pessoas cada.
Na avaliação da pesquisadora reproduzida no levantamento, uma trava no crescimento desses pagamentos comprometeria tanto a renda das famílias quanto a sobrevivência do comércio local em áreas do interior. O estudo sustenta que a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda tem papel relevante não apenas no combate à pobreza, mas também na sustentação das economias municipais fora dos grandes centros.
Sobre quem assina
Redação Monumental News
Conheça o perfil e os textos deste autor.
Ver currículo e matérias →Fontes e transparência
Apoio de IA quando utilizado na produção. Conheça a política editorial · Solicitar correção
